Cristão deve fazer tatuagem?
Publicado: 20/05/2012 em Amor, Amor ao próximo, Cosumismo, Espiritualidade, Igreja dos nossos dias, Igreja Emergente, Juventude, Liberdade cristã, Pecado, Polêmicas, Tatuagem
Tags:deus

Lembro-me
de um semestre no seminário teológico em que lecionei por 9 anos quando
passei como trabalho para os alunos que fizessem uma análise sobre o
que significavam as obras da carne descritas em Gálatas 5. Dos cinco
grupos, dois entregaram o material com uma capa onde havia fotos de
pessoas tatuadas, com piercings, espaçadores de orelhas, cabelos
pintados de verde e similares. Isso deixou claro para mim que esses
elementos compõem, no imaginário geral do evangélico brasileiro, o
arquétipo do que seria a pessoa mundana, pecadora. E é muitíssimo
frequente essa questão vir à tona: cristãos podem se tatuar? É um
assunto secundário e de menor importância para o Evangelho, mas como é
um pedido recorrente nos comentários do APENAS que eu fale sobre o tema e
como cresce a cada dia nas nossas igrejas o número de irmãos que
ostentam tatuagens, farei uma análise bíblica, histórica e cultural da
questão. Antes de continuar, só um registro: não sou tatuado nem
pretendo me tatuar.
Antes de entrar pelo assunto em si explico por que disse que é
“assunto secundário e de menor importância para o Evangelho”. Nos dias
de hoje, em que a Igreja padece com o destemor dos seus membros, a falta
de devocionalidade, o menosprezo pela oração, o posicionamento da
leitura bíblica em segundo plano, a falta de amor ao próximo, a total
irreverência pelas coisas de Deus, o uso de palavras torpes por pastores
em púlpito visto com naturalidade, o mundanismo

invadindo
o santuário por todas as frestas, o desprezo pelo fruto do Espírito, a
supervalorização e o mau uso dos dons, o esfarelamento do Corpo em
facções e panelinhas… algo como aplicar tinta sobre a pele continua
sendo visto como um assunto importante. Quando me perguntam se eu
gostaria de visitar a Disneylândia, respondo: “Claro, depois de visitar
238 lugares antes”, simplesmente porque não tenho o menor interesse em
gastar meu tempo naquele parque de diversões. Prefiro antes conhecer
Israel, a Grécia, a Rússia, o Japão. Gosto de História, quero ver
castelos e ruínas. Não desmereço quem acha a Disneylândia o
must,
mas para mim o interesse é mínimo. Do mesmo modo, muitos setores da
Igreja acham que a questão das tatuagens está entre o top ten das
preocupações de Deus. E quando vejo a falta de amor ao próximo, a
egolatria e a agressividade que têm crescido assustadoramente entre os
cristãos olho para o tema das tatuagens e penso “como isso pode ocupar
tanto a preocupação de tantos? Há 238 preocupações maiores”. Mas tudo
bem, vamos lá.
Biblicamente não há qualquer proibição a se tatuar. Sim, eu sei, aí
imediatamente alguém se levantará para citar Levítico 19.28: “Pelos
mortos não ferireis a vossa carne; nem fareis marca nenhuma sobre vós.
Eu sou o Senhor”. A primeira vista, parece óbvio: Deus manda não fazer
nenhuma marca no corpo, a tatuagem é uma marca no corpo, logo é pecado
se tatuar. Só que para entender esse texto temos que entender o
contexto.

Por
que Deus estabeleceu essa norma para os israelitas? A resposta é que
havia um povo, chamado caldeu, que tinha como hábito religioso cortar a
carne de seus próprios corpos e fazer marcas com lâminas afiadas na pele
como parte dos seus rituais aos falsos deuses que seguiam (a exemplo do
que ocorre atualmente em muitas tribos africanas). Eram marcas que
denunciavam idolatria. Em outras palavras, o que Deus está dizendo é que
os hebreus não deviam cometer as práticas idólatras dos povos pagãos
com que tinham contato. Se fosse em nossos dias, seria mais ou menos
como dizer “Não poreis despacho na encruzilhada” ou “Não rezareis para
santos mortos”.
Essa orientação era tão direta e específica para aquele povo que se
formos ler o versículo imediatamente anterior, teríamos hoje de cumprir o
que ele determina: “Não cortareis o cabelo em redondo, nem danificareis
as extremidades da barba” (Lv 19.27). Bem, não vejo nenhum pastor
pregar contra cabelos arredondados ou contra fazer a barba – pelo
contrário, em denominações como a Assembleia de Deus é até mal visto
usar barba, a ponto de a Casa Publicadora dessa denominação apagar no
photoshop a barba de indivíduos cujas fotos são publicadas em seus
jornais e revistas. Ou, ainda, teríamos hoje de guardar o sábado, visto
que dois versículos depois, em Levítico 19.30, Deus especifica:
“Guardareis os meus sábados e reverenciareis o meu santuário. Eu sou o
Senhor”. O contexto hermenêutico deixa claro que eram leis específicas
para os israelitas daquela época e o contexto cultural mostra a razão de
o Altíssimo proibir marcas nos corpos: não cometer as práticas
religiosas idólatras dos povos vizinhos. Não tem rigorosamente nada a
ver com tatuagens não-rituais e muito menos Lv 19.28 se aplica à Nova
Aliança.
A conclusão é que, biblicamente, não: o ato de se tatuar em si não constitui pecado.

Ok,
agora virá alguém e dirá que nosso corpo é templo do Espírito e que
fazer tatuagens nele seria pecar contra o mesmo. A esse respeito há
alguns aspectos: primeiro, se fazer qualquer coisa que prejudique nosso
corpo é um atentado contra o templo, não poderíamos comer comida
salgada, ingerir açúcar (muito menos adoçantes), comer pizza (cheia de
gordura que causa obesidade e entope artérias), tomar refrigerante (das
coisas que ingerimos uma das mais maléficas) ou comer torresminho (um
pedido explícito para se ter um AVC). Comer no McDonald´s então seria
pecado sem perdão. Logo, devemos olhar esse argumento com muito cuidado.
Segundo, no contexto de 1 Coríntios 6.19, que diz “Acaso não sabem que o
corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que
lhes foi dado por Deus, e que vocês não são de si mesmos?”, o que está
sendo tratado aqui são questões de natureza sexual.
Veja os versículos anteriores, a partir do 15: “Vocês não sabem que
os seus corpos são membros de Cristo? Tomarei eu os membros de Cristo e
os unirei a uma prostituta? De maneira nenhuma! Vocês não sabem que
aquele que se une a uma prostituta é um corpo com ela? Pois, como está
escrito: “Os dois serão uma só carne”. Mas aquele que se une ao Senhor é
um espírito com ele. Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros
pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca
sexualmente, peca contra o seu próprio corpo”. E aí vem o versículo em
questão: “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito
Santo que habita em vocês, que lhes foi dado por Deus, e que vocês não
são de si mesmos?”. Logo, o que está sendo discutido aqui é o corpo como
santuário do Espírito de Deus no que tange à imoralidade sexual, não
tem nada a ver com tinta aplicada sobre a pele.

Sob
o aspecto cultural, a repulsa que a Igreja sempre mostrou a essa
prática vem do fato que, até algumas décadas atrás, nas sociedades
ocidentais, os grupos que se tatuavam geralmente apresentavam um
comportamento bastante mundano. Eram, em especial, marinheiros, que
quando aportavam em alguma cidade podiam ser vistos em prostíbulos ou
bastante bêbados, com atitudes bastante réprobas. Logo, sempre que a
sociedade “bem-comportada” via essas pessoas tatuadas era em situações
de devassidão, mau exemplo ou pecado. Assim, essa visão foi sendo
passada de geração em geração e, para um grupo como os cristãos, para
quem prostituição e beber álcool são o supra sumo da pecaminosidade,
gente tatuada passou a ser sinônimo de gente pecadora. Só que o problema
desses indivíduos não eram as tatuagens, era seu comportamento
antibíblico.
O tempo passou e nos nossos dias a tatuagem perdeu essa conotação.
Hoje há muitas e muitas pessoas de vida honesta que se tatuam. A
associação de tatuados com baderneiros arruaceiros e gente de má fama
deixou de existir. Então, com o passar do tempo, na sociedade ocidental
aplicar pigmentos sobre a pele perdeu aquele aspecto negativo de décadas
e séculos passados. Mas, por uma tradição cultural, as novas gerações
herdaram das antigas que se tatuar é sinônimo de devassidão anticristã e
por isso, sem conhecer as origens da questão, dão continuidade ao que
aprenderam de seus pais, sem nem ao menos saber explicar as razões. Bem,
aqui expliquei.
Portanto, não podemos dizer que biblicamente ou culturalmente haja condenação para o uso da tatuagem.

Mas,
antes que os tatuados saiam dando gritinhos de alegria, temos que dar
atenção a outros fatores, em especial no meio cristão. É de suma
importância aos olhos de Deus a unidade do Corpo. Por isso, em diversas
passagens da Bíblia somos alertados que existem coisas que “são lícitas
mas não nos convém”. Devemos estar atentos para não levar os irmãos à
murmuração, ao escândalo, ao julgamento. Muitas vezes o fazem por
tradição, outras por ignorância ou mesmo por diferença de gerações, mas,
indepentente da razão, o que importa é termos paz com todos. Romanos
8.13ss, nos alerta: “Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez
disso, façamos o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo
no caminho do irmão. Como alguém que está no Senhor Jesus, tenho plena
convicção de que nenhum alimento é por si mesmo impuro, a não ser para
quem assim o considere; para ele é impuro. Se o seu irmão se entristece
devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da
sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu. Aquilo que é
bom para vocês não se torne objeto de maledicência”.
Repare as palavras de Paulo: é mais importante não gerar maledicência
ou escândalo entre os irmãos do que fazer aquilo que não tem nenhum
problema segundo a Bíblia. O mesmo ele repete pouco depois, no capítulo
14: “Como alguém que está no Senhor Jesus, tenho plena convicção de que
nenhum alimento é por si mesmo impuro, a não ser para qu

em
assim o considere; para ele é impuro. Se o seu irmão se entristece
devido ao que você come, você já não está agindo por amor. Por causa da
sua comida, não destrua seu irmão, por quem Cristo morreu. Aquilo que é
bom para vocês não se torne objeto de maledicência. Pois o Reino de Deus
não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo;
aquele que assim serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos
homens. Por isso, esforcemo-nos em promover tudo quanto conduz à paz e à
edificação mútua. Não destrua a obra de Deus por causa da comida. Todo
alimento é puro, mas é errado comer qualquer coisa que faça os outros
tropeçarem. É melhor não comer carne nem beber vinho, nem fazer qualquer
outra coisa que leve seu irmão a cair. Assim, seja qual for o seu modo
de crer a respeito destas coisas, que isso permaneça entre você e Deus.
Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova”.
O que essas passsagens nos dizem? Tatuar-se
biblicamente é pecado? Não. Tatuar-se culturalmente no Brasil é sinal de
devassidão moral? Não. Mas ainda há aqueles que se escandalizam ao ver
na igreja quem se tatue? Sim. Portanto, o grande problema de o cristão
se tatuar não passa por “poder ou não poder”, passa pelo amor ao
próximo.

É
o mesmo caso de mulheres usarem saias ou calças em igrejas mais
conservadoras. Esse hábito surgiu porque décadas atrás, no início do
século 20, calça era roupa exclusivamente de homens. Absolutamente todas
as mulheres no Brasil usavam saia. As décadas se passaram e a calça,
entre os anos 50 e 60, deixou de ser traje exclusivo de homens e foi
adotado pelas mulheres. Ninguém mais se escandaliza em nossa sociedade
ao ver uma mulher, por exemplo, de terninho. Porém, nessas igrejas o
costume foi passando de geração a geração, os mais antigos foram
morrendo e os mais novos, sem saberem explicar a origem da proibição de
calças na igreja por mulheres apenas mimetizam o que aprenderam, sem
saber as origens ou as razões. E aí criamos um bando de estranhos ao
século 21, que acreditam que mulher usar calça é pecado – quando não é,
se for uma calça decorosa.
Mas, do mesmo modo que a tatuagem, se você opta voluntariamente por
ser membro de uma congregação onde a norma seja a mulher usar saia, se
usar calça estará sendo desobediente às regras da assembleia onde está
e, portanto, em rebeldia – e pecará por levar os irmãos ao escândalo e à
murmuração.
A conclusão é: se o meio que você frequenta tem usos e costumes, não
afronte, faça parte. Se discordar, saia e procure outro meio. Ou fique,
adote o hábito e tente com amor ir influenciando os irmãos no
conhecimento da verdade. O confronto jamais é o caminho. Por uma razão
simples: é pecado.

E há ainda alguns pontos a ponderar. Aqui tomo por base um texto muito bem refletido publicado no blog de Nathan Joyce (
foto à esquerda),
Pastor do Heartland Worship Center, em Paducah (EUA) e divulgado no
twitter pela irmã Francine Veríssimo (@FranVerissimo_), de quem tirei as
boas reflexões que acrescento abaixo. O artigo, originalmente em
inglês, chama-se “O que tatuagens realmente dizem”. Após mencionar que
estimados 45 milhões de estadunidenses hoje são tatuados, o autor lembra
alguns pontos relevantes:
1. Você vai envelhecer e se tornar um avô ou avó. E
ninguém quer identificar seus avós como aqueles que têm “uma caveira ou
arame farpado”.
2. Lembre-se que, na medida em que envelhece, seu
corpo muda. Sua tatuagem vai acompanhar as mudanças. Cuidado, pois ao
passo que sua pele se torna mais flácida, a borboleta em seu ombro pode
se transformar num pterodáctilo e sua rosa pode virar o planeta Saturno.
3. De jeito algum tatue o nome de um namorado ou
noivo. Se o relacionamento acabar, seu futuro marido ou esposa não vai
gostar nada disso.
Joyce se pergunta por que afinal alguém precisa tanto se tatuar.
Tatuagens dizem algo a nosso respeito. Que necessidade tentamos suprir
com elas? Qual é a psicologia das tatoos? Mais ainda: qual é a
espiritualidade delas? E ele apresenta sua conclusão: as pessoas se
tatuam porque desejam desesperadamente pertencer e se expressar.
Desejamos ter vidas que digam algo, queremos nos identificar com algo
publicamente e nos marcar permite que nos expressemos e nos
identifiquemos com a imagem de nossa escolha. Certo ou errado, é uma
tentativa de realizar uma necessidade humana. Uma vez que se tatua, você
assumiu um compromisso de longo prazo com uma imagem que para sempre
vai marcá-lo, ou seja, identificá-lo e expressar algo a seu respeito
para os outros. Ou seja: nos etiquetamos.

E
ele continua: “De onde vem essa necessidade? Do fato de que fomos
feitos à imagem de Deus, que também ama o pertencimento e a
autoexpressão. Mesmo antes da Criação, Deus se identificava e pertencia à
Trindade e a Criação é uma autoexpressão de Deus. E assim o Senhor nos
criou do mesmo modo. Somos incompletos, a menos que pertençamos a algo
ou alguém – nosso desenvolvimento depende disso. Os humanos também
almejam uma vida que expresse legado. O problema é que o pecado
atrapalhou todo o processo. Por causa dele, nossa busca por
identificação tornou-se tóxica e compulsiva e nossa necessidade de
autoexpressão deixou de ser motivada por amor, mas por desejo de
grandeza e egocentrismo. Nossa cultura ama se expressar, não porque
desejemos amar o próximo por meio dessa expressão, mas porque amamos ser
o centro das atenções”. No final, essa profunda necessidade humana de
pertencimento e expressão não será alcançada por meios humanos – somente
quando o amor passar a habitar em você. E não qualquer tipo de amor,
mas o amor de Cristo. Esse amor lhe convida a pertencer a um Deus eterno
e a expressar Seu amor e Seus propósitos eternos.
Ao final, Pastor Joyce tem uma magnífica epifania: tatuado ou não, o
amor é a marca que identifica você com Cristo. Um amor expressado por
boas obras em benefício do próximo deixa uma marca que jamais se
apagará.
Paz a todos vocês que estão em Cristo.
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OBS: Texto extraido do Blog "APENAS": http://apenas1.wordpress.com
Autor: Maurício Zágari